Workshop de chocolate na DENEGRO com o Chefe António Marques
Antes de começar a descrever o que foi o workshop, devo dizer que o aconselho a todos, mas principalmente àqueles que, como eu, adoram chocolate.
No meu aniversário do ano passado o pessoal decidiu oferecer-me um daqueles vouchers da Smartbox e fui “obrigado” a escolher um workshop de culinária. Dei uma olhadela aos ateliês que poderia frequentar e decidi fazer qualquer coisa relacionada com chocolate, já que é um ingrediente que me fascina, devido à sua multifuncionalidade, mas, principalmente, porque é muito, muito bom. Foi assim que escolhi fazer este workshop.
A DENEGRO é uma oficina que está instalada na Rua de São Bento, em Lisboa, e que fabrica manualmente diversos tipos de chocolate, mas também macarons, e outras coisas boas. Um dos sócios da empresa é o Chefe António Marques, chefe pasteleiro do Restaurante Bica do Sapato e grande amante e conhecedor desta maravilha gastronómica.
Bem, feitas as apresentações, vou agora falar do que foi a experiência de trabalhar com chocolate. Na fase “pré-laboral” o chefe fez uma apresentação, onde falou da história, origem e características, mas também do mercado internacional. De seguida foi a altura de conhecer as diferentes técnicas e formas de trabalhar esta iguaria. Foi-nos dada a oportunidade de fazer trufas, bombons e chupas de chocolate, bem como de provar alguns tipos de chocolate diferentes.
O chocolate:
Ao contrário do que se pensa, o chocolate não vem do Brasil. A origem deste alimento é a América Central, mais propriamente o México. Inicialmente era consumido como uma bebida quente pelos povos centro-americanos e, como aconteceu com outros produtos, foi trazido para a Europa pelos espanhóis, onde passou a ser adoçado e misturado com outras especiarias, de forma a aperfeiçoar o seu sabor.
Apesar de ser a Europa o maior produtor de chocolate, não existe no nosso continente qualquer plantação de cacau, uma vez que os cacaueiros apenas podem ser plantados numa zona tropical, numa faixa de 100km acima e abaixo da linha do Equador. Assim sendo, é dos países tropicais que vem o cacau que origina o chocolate. Países como Cuba, Brasil, México, Venezuela, Gana, Costa do Marfim (maior exportador de cacau da actualidade), S. Tomé e Principe, Madagáscar, Tanzânia, Índia, Indonésia, entre outros, são os países de origem do cacau.
Relativamente à produção de chocolate, os belgas são os líderes mundiais, já que são os maiores produtores de todo o globo. O chocolate de leite suíço é igualmente conhecido a nível mundial, devido à qualidade do leite da região alpina, que proporciona a produção de um chocolate de altíssima qualidade. Quanto ao cacau, o Chefe António Marques referiu que o melhor é o proveniente de Cuba, Madagáscar, Tanzânia e também da Venezuela, dependendo do gosto de cada um, uma vez que o sabor do chocolate varia consoante os cacaueiros utilizados. A título de exemplo devo dizer que provei chocolate de Madagáscar e também do Gana. O de Madagáscar era de 67% (de cacau) e o do Gana de 70%. Pensei logo que o do Gana teria um gosto mais forte, um sabor mais amargo, por ter uma maior percentagem de cacau. Quando provei os dois verifiquei o contrário, o chocolate de Madagáscar era bem mais amargo. Nada melhor do que uma prova para perceber as diferenças existentes entre os diferentes tipos de cacaueiro.
O chocolate engorda?
O chocolate é constituído por uma pasta de cacau e por outros componentes que lhe são acrescentados. Se o chocolate engorda ou não, depende desses mesmos componentes. Segundo o Chefe António Marques, o chocolate saudável é constituído por pasta de cacau, manteiga de cacau, açúcar (se não for usado em excesso não é assim tão prejudicial à saúde), baunilha natural, leite em pó e lacitina de soja. O que o Chefe referiu durante o workshop é que o que faz com que o chocolate engorde muito são as gorduras hidrogenadas que são acrescentadas e que estão presentes naqueles chocolates mais comuns, que vemos nos supermercados. Assim sendo, quanto mais puro o chocolate (e o chocolate negro é o mais puro), ou seja, quanto mais percentagem de cacau tiver e menos de gorduras hidrogenadas (os bons chocolates não têm este tipo de gorduras), melhor é o chocolate e menos engorda. Neste sentido, o chocolate negro é o mais saudável, enquanto que o branco, que do cacau apenas tem a manteiga, é o mais prejudicial à saúde.
Cozinhar com o chocolate:
Como já disse, ter feito este workshop permitiu aumentar bastante os meus conhecimentos sobre o chocolate e respectivo manuseamento. Uma coisa que aprendi, e que penso que facilita bastante o trabalho com o chocolate, é que se devem usar pedaços pequenos em vez da tradicional tablete, já que estes são bastante mais funcionais e permitem, por exemplo, que o chocolate seja derretido de forma mais uniforme. Para dar uma ideia do que aprendi vou deixar aqui algumas dicas que ajudarão a melhorar os vossos dotes de chocolateiros.
Ambiente e armazenamento:
O local onde se irá trabalhar o chocolate deve estar entre os 18ºC e os 20ºC. O ambiente deve ser seco, já que o chocolate não gosta de água. Por essa mesma razão não se deve colocar o chocolate no frigorífico, pois facilmente ganha humidade e cheiros. Se for colocado no frigorífico deve estar muito bem fechado e deve ser consumido em 1, 2 dias. O armazenamento ideal deverá ser feito num ambiente com uma temperatura entre os 15ºC e os 18ºC e uma humidade entre os 55% e os 65% e longe do contacto com qualquer substância que possa transmitir cheiros.
Relativamente às formas usadas, estas devem ser de um plástico que não agarre o chocolate, para que este seja facilmente desenformado. Para isso o chefe sugeriu as formas de policarbonato e desaconselhou as de silicone, tão usadas por todos nós. Devo ainda dizer que a limpeza das formas de policarbonato é feita com algodão, evitando assim qualquer tipo de rugosidade que poderia fazer com que o chocolate se agarrasse à forma. A gordura da manteiga de cacau serve também para dar uma capa anti-aderente à forma.
Para trabalhar o chocolate o Chefe António Marques indicou ainda que uma bancada em pedra é ideal, uma vez que não é condutora de calor, como por exemplo uma bancada metálica.
Derreter o chocolate:
O chocolate não deve derreter acima dos 45ºC, 47ºC, por isso requer um aquecimento gradual. É ainda de referir que o chocolate que vai ser derretido deve estar partido em pedaços idênticos. Para derreter suavemente esses pedaços a DENEGRO sugere três técnicas diferentes de aquecimento:
· Recipiente largo com água e no meio tigela alta com chocolate (CUIDADO PARA NÃO COLOCAR ÁGUA EM CONTACTO COM O CHOCOLATE!);
· Panela dupla própria para banho-maria;
· Microondas (é a técnica sugerida pela DENEGRO). Neste processo apenas terá de ter cuidado com o tempo. Como a temperatura do chocolate não pode subir os 45ºC, 47ºC deve-se derreter o chocolate em períodos pequenos de tempo, de aproximadamente 20 segundos. Entre esses períodos deve-se tirar o recipiente do microondas e ir mexendo o chocolate para envolver todos os pedaços. Depois de mexer coloca-se novamente o recipiente 20 segundos a aquecer no microondas (pode ser na potência máxima) e, de seguida, retira-se e volta-se a mexer. Faz-se isto até o chocolate ficar derretido. De notar ainda que quanto mais doce é o chocolate, menor deverá ser o período de tempo.
Cristalizar o chocolate:
A cristalização do chocolate permite que este se mantenha brilhante e crocante por mais tempo. É, por isso, um processo essencial a ter em conta na altura de cozinhar chocolate.
Foram-nos ensinadas duas técnicas diferentes para se fazer este processo, que irei explicar de seguida:
· Depois de chocolate derretido (a 45ºC), espalha-se cerca de 2/3 do mesmo sobre a pedra da bancada e trabalha-se com uma espátula até estar esfriado e pastoso. Este deve descer até à temperatura de 27ºC. De seguida junta-se o restante 1/3 de chocolate e verifica-se a temperatura final, que depende do tipo de chocolate. Para o chocolate negro essa temperatura deve estar entre 31ºC e 32ºC, o chocolate de leite deve ficar entre os 29ºC e os 30ºC, enquanto que o chocolate branco deve ter uma temperatura final próxima dos 27ºC, 28ºC.
· Derrete-se uma quantidade de chocolate (como exemplo vou usar 1 kg de chocolate) a 45ºC. De seguida junta-se mais 20% do que foi derretido (neste caso junta-se mais 200g) e mexe-se tudo muito bem até que o chocolate atinja as temperaturas referidas na técnica anteriormente descrita. De referir que os 20% tem de ser um chocolate cristalizado (se adicionarmos uma tablete não a poderemos partir, porque esta já fica friccionada).
Chocolate com outros ingredientes:
No início do workshop foi-nos facultado um conjunto de folhas com algumas dicas sobre o chocolate. Um dos pontos referidos era a forma como devemos misturar o chocolate com outros ingredientes. Achei que seria interessante colocar aqui alguns dos saberes facultados, pois estes pormenores podem, por vezes, ser a fronteira entre uma boa receita e um prato que relativamente ao qual se diz “Eh, come-se!”. Sendo assim, deixo aqui o que se deve fazer quando se mistura o chocolate com outros componentes:
· Para não cozer as gemas, deve-se esperar que o chocolate arrefeça antes de se juntarem os dois;
· Com claras batidas deve-se arrefecer o chocolate e não bater a mistura, mas envolver em pequenas porções;
· As bebidas alcoólicas devem ser adicionadas ao chocolate na altura em que este vai ser derretido;
· Na ganache as natas devem ferver e só depois se acrescenta o chocolate para derreter nas natas
Os bombons:
A parte prática do workshop recaiu principalmente sobre bombons. Para além de nos mostrar como se faz o chocolate que dá a capa do bombom, que já falei anteriormente, o Chefe António Marques falou ainda dos recheios e de outras particularidades destas delícias.
Uma informação importante que retirei das explicações é que um bom bombom, para além de ter uma capa brilhante e estaladiça, tem de ter um recheio cremoso e mole (quanto mais mole, melhor). Outra coisa que percebi é que nós, ao contrário dos chefes, temos uma grande dificuldade para encontrar certos ingredientes, visto não existirem no mercado. Isso leva a que, por vezes, seja necessário recorrer-se a certos improvisos.
Como referi, na parte prática do workshop tivemos a oportunidade de conhecer melhor os bombons. Para além de vermos e ajudarmos a fazer bombons recheados, estivemos também a finalizar umas trufas de chocolate branco e coco, que são sempre feitas com duas camadas de chocolate. Os bombons recheados são feitos da seguinte maneira:
1. Enche-se a forma de chocolate até acima e alisa-se com o auxílio de uma espátula;
2. Vira-se a forma e tira-se o chocolate excedente (deve-se bater na forma, com a pega da espátula, para sair melhor o chocolate);
3. Passa-se novamente a espátula na forma para alisar;
4. Vira-se novamente a forma, coloca-se em cima de uma folha de papel vegetal e bate-se com o cabo da espátula para sair mais chocolate. Deixa-se assim durante 1, 2 minutos;
5. Faz-se o mesmo do que foi feito no ponto 4, mas noutro pedaço do papel vegetal e depois vira-se a forma para cima;
6. Depois da capa estar seca recheia-se o bombom. O recheio do bombom deve ter uma humidade máxima de 15% e deve ser colocado a uma temperatura entre os 30ºC e os 33ºC, para não danificar o chocolate da capa. Tem de se ter cuidado para não colocar recheio em excesso, pois pode dificultar o fecho do bombom. Deixa-se solidificar de um dia para o outro;
7. Fecha-se o bombom. Coloca-se chocolate, deixa-se solidificar e depois passa-se a espátula para alisar a forma e tirar o chocolate excedente.
8. Por fim desenformam-se os bombons. Se não despegarem bem da forma, colocam-se no congelador durante 5 minutos para que o chocolate retraia com o choque térmico.